Tempo de leitura: 12 minutos

Olá! Que alegria ter você por aqui no nosso cantinho do Palavra Viva. Senta, pega um café (ou um chá, se preferir) e vamos conversar sobre algo que me deixou com o coração pulsando forte nestes últimos dias.

Deixa eu te fazer uma pergunta antes de começar: você acredita, de verdade, que a sua oração muda alguma coisa?

Não é uma pergunta com cilada. É que às vezes a vida vai passando, o mundo parece grande demais, os problemas parecem grandes demais, e a gente fica ali, na beira da cama, murmurando uma oração quase sem acreditar que ela vai chegar a algum lugar.

Se você já se sentiu assim — e eu arriscaria dizer que a maioria de nós já foi a esse lugar —, então a história de hoje foi feita pra você.

Porque vou te contar sobre um ex-minerador de carvão do País de Gales que nunca foi general, nunca foi diplomata, nunca pisou em campo de batalha. Mas há quem defenda, com argumentos históricos sérios, que ele foi uma das peças mais decisivas na derrota de Adolf Hitler.

O nome dele é Rees Howells. E a história dele vai te surpreender do começo ao fim.

A criança das minas — e a casa dos avós

Gales, 10 de outubro de 1879. Rees Howells nasce numa vila de mineradores, num tempo e num lugar onde “subir na vida” tinha um sentido bastante literal: ou você descia para as minas de carvão, ou encontrava outro jeito de escapar.

Aos doze anos, Rees já estava trabalhando. Primeiro no moinho, depois nas minas. Não tinha romantismo nisso — era carvão, escuridão, cansaço e o peso do trabalho braçal. A economia inteira de Gales girava em torno daquelas minas, e esse ambiente moldou nele duas coisas muito concretas: a paixão pelo boxe e uma ambição enorme por dinheiro.

Ele não era, nos primeiros anos, uma pessoa naturalmente inclinada à oração ou à vida de fé. Era simplesmente um operário pragmático querendo vencer na vida. Simples assim.

Mas havia um outro lado nessa história.

Enquanto o ambiente das minas empurrava Rees para a ambição, a casa dos avós o colocava numa realidade completamente diferente. Os avós dele tinham sido alcançados pelo famoso Avivamento de Gales de 1859 — e Rees contava que entrar naquela casa era como entrar em outro mundo. Ele descrevia como “estar no céu”. Aquela atmosfera de fé, de presença de Deus, ficou gravada nele para sempre.

Então, desde pequeno, havia uma tensão dentro de Rees Howells: de um lado, a ambição pelo dinheiro. Do outro, aquela memória de algo maior que ele ainda não sabia nomear direito.

O sonho americano que desmoronou na cama de um doente

Aos 22 anos, Rees tomou uma decisão: foi para os Estados Unidos. Tinha um primo lá, e o sonho era claro — largar a pobreza, fazer dinheiro, vencer. O sonho americano em pessoa.

Só que antes de embarcar, ele foi a um culto. Quase por acidente. E o pregador, como se soubesse, olhou nos olhos daquele jovem que estava de malas prontas e disse algo que não sai mais da cabeça de quem ouve:

“Jovem, você pode estar indo para um lugar onde seus pais não vão te ver. Mas lembre-se: a nuvem de testemunhas e o próprio Deus vão estar te olhando.”

Esse é o tipo de frase que gruda na alma, não é? Rees cruzou o Atlântico com essa voz na memória.

E o destino foi irônico. Em vez de riqueza, o que encontrou do outro lado foi a febre tifoide. Chegou nos Estados Unidos e foi parar numa cama, quase morrendo. O boxeador, o trabalhador de minas, o homem de força física — tudo inútil diante de um corpo que estava falhando. A segurança do dinheiro, que ele ainda nem tinha, não existia para aquele momento.

Foi nesse isolamento forçado que ele mergulhou na leitura de um livro do autor Henry Drummond e começou a enxergar a própria condição espiritual de um jeito novo. Ele mesmo diria mais tarde: “Eu tinha um Cristo histórico, mas ainda não tinha um Salvador pessoal.”

Aquilo abriu uma ferida. Mas ainda não trouxe descanso.

O ponto de virada definitivo viria depois, quando ele se mudou para a Pensilvânia. Lá, numa reunião, quem pregava era um evangelista judeu (Maurice Reuben) que havia perdido absolutamente tudo por amor a Cristo — família, herança, a fortuna dos pais ricos. Só a história desse homem daria um artigo inteiro por aqui. Mas foi através dele que Rees ouviu o Evangelho de um jeito que nunca tinha ouvido. E ali, naquele dia, ele se rendeu a Jesus.

De volta para casa — direto para o meio do fogo

Rees voltou para Gales. E o ano era 1904.

Se você conhece a história do Protestantismo, já sabe o que aconteceu em 1904 em Gales: o Grande Avivamento. Um dos movimentos espirituais mais extraordinários da história moderna. As descrições são de arrepiar — igrejas tomadas por multidões, homens durões das minas de carvão chorando em arrependimento público, pessoas dominadas pelo Espírito Santo como no dia de Pentecostes. Em pouco tempo, diziam que o país inteiro estava em chamas.

Rees voltou para as minas de carvão durante o dia, mas nas horas livres se jogava de cabeça no avivamento. O que é fascinante na história dele, porém, é que ele não foi atraído pelo lado mais chamativo daquele mover. Enquanto muita gente corria para as grandes reuniões nas igrejas lotadas, Rees se voltou para outro lado — para o público esquecido.

Ele foi até uma aldeia vizinha marcada pelo alcoolismo e pela apostasia. Foi evangelizar bêbados e pessoas que tinham desistido da fé. Quem virou as costas. Quem estava enterrado no próprio pecado.

Isso sempre me chama atenção nele. Rees Howells não começou orando por governos, exércitos e nações. Ele começou servindo gente quebrada num lugar que a maioria não queria estar.

O tio Dick e a lição que mudou tudo

Nesse período, aconteceu algo na família de Rees que vai te marcar tanto quanto me marcou.

Ele tinha um tio chamado tio Dick. Um homem que não andava havia 30 anos. Completamente dependente. E Rees sentiu de Deus que aquele homem seria curado.

O próprio tio Dick buscou a Deus em oração e voltou com uma declaração que parecia loucura: “Daqui a quatro meses e meio, estarei curado.”

Mas a instrução que Deus deu foi ainda mais estranha: não orem mais sobre isso. Porque já estava selado. Continuar orando seria como dizer que não havia fé de que a resposta viria.

A notícia se espalhou. As perguntas vieram. O ceticismo veio. E enquanto todo mundo esperava alguma melhora, o tio Dick piorou. Ficou completamente acamado.

Rees foi orientado a se afastar — para que ninguém pudesse dizer que ele tinha alguma influência humana na cura. A história conta que o tio Dick ouviu de Deus o horário exato: 5 da manhã do dia 15 de maio. Na noite anterior, dormiu em paz. Quando o relógio bateu 5 da manhã naquele dia, ele estava curado. Naquele mesmo dia, caminhou três milhas a pé até a igreja.

Não há como ler isso e ficar indiferente. E para Rees, aquela experiência ensinou algo que ele carregaria para o resto da vida: a oração que move montanhas não é barulho e agitação. É certeza. É fé que já age como se a resposta tivesse chegado.

Uma escola que era um quartel-general

Depois de um tempo como missionário na África — onde ele e a esposa Elizabeth viveram histórias extraordinárias, vendo sinais de avivamento acontecer também entre o povo daquela região — Rees voltou para Gales com uma visão clara.

Ele queria fundar uma escola bíblica. Uma casa de oração e treinamento missionário, inspirada no que havia visto no Instituto Bíblico Moody nos Estados Unidos.

Certa vez, caminhando com Elizabeth perto de uma baía no litoral de Gales, eles passaram por uma casa vazia. E Rees ouviu no coração: “Essa é a escola. Aqui é o lugar.”

O problema? Ele não tinha o dinheiro. Vários outros compradores queriam aquele terreno. E ele passou quase dez meses em oração — literalmente turnos inteiros de oração, como se fosse um horário de trabalho — até que os recursos chegassem. Guiado pelos mesmos princípios de George Müller, ele nunca fez campanha de arrecadação, nunca pediu publicamente. Só orou.

O Bible College of Wales foi fundado em 1924 com alguns centavos no bolso. E existe até hoje, recebendo estudantes do mundo inteiro.

O Quarto Azul — onde a história foi decidida

A escola bíblica de Gales estava funcionando a todo vapor quando, na Alemanha, um homem chamado Adolf Hitler subia ao poder.

E foi nesse momento que um cômodo daquele colégio ganhou um papel que ninguém teria imaginado: o Quarto Azul.

Era literalmente uma sala de reunião de oração. Mas com o tempo virou muito mais do que isso. Era onde Rees e seus alunos se trancavam para interceder. Não por quinze minutinhos antes de dormir. Eles liam os jornais, ouviam o rádio, acompanhavam o avanço do nazismo pela Europa — e então desciam para a batalha.

Um detalhe que poucos sabem: as reuniões geralmente começavam às 7 da noite. Faziam uma pausa. E então continuavam virando a madrugada — sem hora marcada para terminar — até que houvesse paz e clareza no espírito de que haviam alcançado o que precisavam alcançar em oração. Era um trabalho real. Uma disciplina de guerreiros.

Rees tinha uma convicção muito clara: o nazismo não era só um problema político. Era um sistema sendo usado para fechar as portas do Evangelho no mundo inteiro. E a resposta da Igreja não podia ser ficar olhando.

Desde 1936, a escola era um quartel-general de intercessão. Cada movimento de Hitler — a entrada na Renânia, a invasão da Áustria, a ocupação da Tchecoslováquia — era acompanhado de turnos de oração lá naquele quarto. Quando Mussolini invadiu a Etiópia, eles também oraram, ininterruptamente. Eram como sentinelas espirituais mapeando o avanço do inimigo.

Dunquerque: quando os tanques pararam sem explicação

Maio de 1940. A situação era desesperadora.

Mais de 300 mil soldados aliados estavam encurralados na praia de Dunquerque, no litoral da França. O exército nazista tinha varrido a Europa. Churchill esperava salvar, no máximo, 45 mil homens — e mesmo assim considerava aquilo quase impossível. Era o fim da Grã-Bretanha.

No Quarto Azul, em Gales, a batalha era outra. Rees reuniu todos os intercessores. E declarou, contra tudo o que os jornais diziam, que Deus havia prometido que a Inglaterra não seria invadida.

No dia 18 de maio, ele orou especificamente pedindo que Deus trouxesse desastre aos planos nazistas.

No dia 24 de maio de 1940, aconteceu um dos maiores mistérios da Segunda Guerra Mundial. Hitler, contra a opinião unânime de seus generais, ordenou que os tanques parassem. Simplesmente parassem. A ofensiva foi suspensa por dias. Historiadores debatem até hoje o que motivou aquela decisão — e nenhuma explicação estratégica satisfaz completamente.

No dia 29 de maio, no auge da operação de resgate, Rees entrou em oração e declarou: “Vejo o Espírito Santo no campo de batalha, com sua espada desembainhada.”

Naquele dia, o Canal da Mancha — conhecido por ser agitado e traiçoeiro — ficou excepcionalmente calmo. Uma neblina densa cobriu as praias, impedindo a força aérea alemã de enxergar os soldados. E pequenos barcos civis, que não foram feitos para aquilo, cruzaram o canal fazendo o resgate.

O resultado: 338 mil homens salvos. Uma operação que deveria salvar 45 mil evacuou mais de sete vezes isso.

Os livros de história chamam de Milagre de Dunquerque. Para quem estava de joelhos no Quarto Azul, não havia mistério.

Moscou, o domingo de outubro e o inverno que chegou cedo

19 de outubro de 1941. Um domingo. O exército nazista estava praticamente nas portas de Moscou.

A esposa de Rees conta que naquela manhã ele foi ouvir o noticiário e voltou com o relatório: a cidade ainda não havia caído, mas todo mundo esperava as más notícias a qualquer momento.

Foi então que ele sentiu algo que descreveu como uma voz direta: “Há realmente necessidade de Moscou cair? Por que você não ora e crê para que eu salve Moscou e dê um revés aos nazistas?”

Rees abriu a reunião e deu a diretiva. Ele mesmo admitiu que aquilo parecia absurdamente ridículo. Impossível. Moscou estava militarmente sitiada. O que poderia uma sala de oração em Gales fazer?

Eles oraram o dia inteiro. E a noite. E a fé foi crescendo até virar certeza.

No dia seguinte, as notícias começaram a mudar. Os russos tomaram novo ânimo. E então o inverno russo — que era para chegar mais tarde — chegou mais cedo do que qualquer previsão, com uma intensidade devastadora. Os soldados alemães não tinham roupa adequada para aquele frio. O combustível congelou. As armas emperraram. Os motores pararam.

A Operação Barbarossa, o plano de Hitler para dominar a União Soviética em semanas, começou a ruir. Em dezembro de 1941, os alemães foram forçados a recuar pela primeira vez na guerra.

Moscou não caiu. E o mito da invencibilidade nazista acabou ali.

O mesmo padrão, repetido

Dunquerque e Moscou são os episódios mais conhecidos, mas o mesmo padrão se repetiu em outros momentos decisivos da guerra.

Eles oraram por Stalingrado. Oraram pela invasão da Normandia no Dia D. Quando os nazistas avançavam pelo norte da África, o Quarto Azul também entrou em batalha.

Há relatos de que as impressões espirituais do grupo chegavam, por caminhos não oficiais, a pessoas próximas ao governo britânico. O que é oficial é o seguinte: em momentos críticos da guerra, Churchill convocou dias nacionais de oração no Reino Unido, e há registros de que ele pessoalmente procurou pastores pedindo intercessão, porque entendia que havia algo além da estratégia militar em jogo.

Depois da guerra, o trabalho continuou. A escola bíblica de Gales orou pela votação na ONU em 1947, que abriu o caminho para a criação do Estado de Israel. Aquilo era, para eles, um encargo espiritual que precisavam carregar.

Um legado que atravessou gerações

Rees Howells morreu em 1950. Mas o impacto da sua vida não parou no Quarto Azul.

Você provavelmente já ouviu falar de Leonard Ravenhill — aquele pregador que passou décadas convocando a Igreja para sair da superficialidade e voltar à oração de verdade. O que muita gente não sabe é que Ravenhill foi profundamente influenciado por Rees Howells. Quase discipulado por ele. Os apelos de Ravenhill por quebrantamento, seriedade espiritual e uma vida de oração que custa alguma coisa têm raízes diretas no que ele viu e ouviu sobre a vida desse galês.

O filho de Rees, Samuel Howells, continuou o ministério após a morte do pai. A escola passou por um período de fechamento, mas foi reaberta — com o mesmo nome, o mesmo propósito. Lá existe hoje até um pequeno museu contando toda essa história. E o Quarto Azul ainda está lá.

Até hoje o Bible College of Wales mantém um altar de oração pelo povo judeu. A semente que Rees plantou continua brotando.

O que essa história tem a ver com a sua vida?

Muito. Na verdade, tudo.

A vida de Rees Howells não é a história de um super-herói espiritual que surgiu do nada já pronto para mover montanhas. É a história de um menino das minas que queria dinheiro, que foi ao boxe, que cruzou o Atlântico atrás de um sonho e chegou lá com febre. É a história de alguém que levou tempo para entender o que realmente importava — e que, quando entendeu, simplesmente ficou disponível.

O que preparou Rees para aquele ministério extraordinário de intercessão não foi um dom sobrenatural reservado para poucos. Foi uma vida de decisões escondidas. Obediência quando ninguém estava vendo. Renúncia quando o custo era alto. Continuar orando quando nada ao redor parecia mudar.

Ele levava a oração como um trabalho. Com seriedade, com horário, com entrega. Não como um entusiasmo espontâneo que vem e vai — mas como uma vida real de submissão contínua a Deus.

Talvez o seu campo de intercessão não seja uma guerra mundial. Talvez seja a saúde de alguém que você ama. A reconciliação de uma família que parece quebrada além do conserto. Uma situação no trabalho, num relacionamento, num futuro que ainda não chegou. A vida de uma pessoa que você não consegue tirar do coração quando ajoelha.

O que essa história nos prova é que orações feitas em quartos anônimos, por pessoas que o mundo nunca vai fotografar, podem mudar o curso de coisas que o mundo inteiro vai sentir.

Uma última coisa antes de você ir

Existe uma imagem bíblica linda — ficar “na brecha”. É a imagem do intercessor que se coloca entre o perigo e o povo. Que não foge da batalha espiritual. Que permanece de pé quando seria muito mais fácil sentar.

Rees Howells ficou na brecha. Por décadas. Em anonimato quase total. Num vilarejo do País de Gales que a maioria do mundo nunca vai visitar.

E há razões sérias para acreditar que a história do século XX foi diferente por causa disso.

A pergunta que fica — e que fico me fazendo enquanto escrevo isso — é simples: tem alguma brecha, hoje, que está esperando pela sua oração?

 

Este artigo abre oficialmente a nossa nova série semanal aqui no blog: Fé que Transforma — uma história de cada vez. Todas as semanas, vamos juntos viajar pelo tempo para conhecer a vida de homens e mulheres comuns que, nos bastidores da história, moveram os céus e mudaram a Terra através da fé prática. Não perca o texto da próxima semana!

 

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Se essa história mexeu com você tanto quanto mexeu comigo, eu preciso te indicar um livro que mudou completamente a minha visão sobre a vida de oração. Toda a trajetória do Rees Howells, com detalhes profundos sobre as experiências dele na África, nas minas e no Quarto Azul, está registrada no livro “Intercessor”, escrito por Norman Grubb.

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